
"[...] felicidade é um fazer contínuo;
é o prazer de viver cotidianamente;
é um trabalho de todos
os dias, não é metafísico."
Em entrevista ao El Pais, o psiquiatra Boris Cyrulnik, aborda concepções
relevantes sobre trauma, felicidade e determinismo.
Para o ph.D. traumas não determinam o futuro de uma pessoa e podem ser
trabalhados e superados.
De fato, o psicanlista é considerado o pai da resiliência, termo em voga e que
ele mesmo define como: "Retomar um novo desenvolvimento após uma agonia
psíquica e traumática" - (Rafael Koscianski Vidal - CONIPSI - Conselho
Internacional de Psicanálise)
Boris Cyrulnik decidiu que queria ser psiquiatra aos 11 anos. Viu nessa ciência
da alma, como ele mesmo define, a possibilidade de tentar entender a loucura do
nazismo. Quando tinha seis anos, quatros oficiais alemães armados cercaram sua
cama e o levaram preso. Demorou a compreender que aquilo ocorreu porque era
judeu.
Recuperar pessoas que sofreram um trauma infantil. Isso acabou se
transformando, anos mais tarde, na missão de sua vida. E, de fato, ele é
considerado um dos pais da resiliência, termo agora tão em voga que indica a
capacidade de voltar à vida após passar por um trauma.
Psiquiatra, neuropsiquiatra, psicanalista, pesquisador e etnólogo francês (de
origem russa), mostrou em 2001 com Os Patinhos Feios que uma infância infeliz
não precisa determinar uma vida: os traumas podem ser trabalhados, podem ser
superados.
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Nascido em 1937 em Bordeaux, resgatado da orfandade – seus pais morreram na
guerra – por uma tia, apresenta agora As Almas Feridas (Gedisa, 2015), obra na
qual destila o saber dos anos dedicados a curar feridas. Em uma sala do
Instituto Francês de Barcelona, concede essa entrevista horas antes de
pronunciar uma conferência.
Pergunta. O senhor definiu a resiliência como "a arte de navegar nas
enxurradas" em seu livro de 2001, Os Patinhos Feios. Em 2012, em Paris, no
primeiro congresso sobre resiliência, foi definida como "a volta à vida
após um trauma psicológico". Qual definição prefere?
Resposta. Sim, a definição evoluiu. A metáfora é: somos empurrados a uma
enxurrada por uma desgraça da vida; alguns se deixam arrastar e atingir, outros
se debatem e, com um pouco de sorte, colocam-se novamente a salvo. Quando
começamos com nossos trabalhos sobre a resiliência em Toulon chegamos a uma
definição que é: "Retomar um novo desenvolvimento após uma agonia psíquica
e traumática".
P. Em As Almas Feridas o senhor diz que existem 4.641 documentos e 1.023 teses
de doutorado sobre resiliência somente na França. É possível falar de uma moda,
de um exagero do termo, como o senhor já disse?
R. Sim, tem ocorrido um efeito de moda na resiliência que gerou um exagero no
uso da palavra. Aconteceu com a psicanálise, com a genética; acontece sempre
que um conceito entra muito rapidamente na cultura: todo mundo adota essa
palavra e dilui seu significado. O exagero da psicanálise fez com que Freud
fosse taxado como um obsessivo sexual e a psicanálise como imoral; no caso da
resiliência: o exagero semântico fez com que se diga que resiliência significa
que é possível curar-se de tudo. E eu nunca utilizo o termo curar. Além disso,
não é possível curar-se de tudo. Mas se nada for feito, não é possível curar-se
de nada. Se algo for feito, às vezes melhora-se um pouco, mesmo que nem sempre.
P. O senhor afirma que a resiliência ajuda a vencer preconceitos. Contra quais
preconceitos o senhor luta?
R. Contra o determinismo biológico e sociológico únicos: "Foi maltratado,
irá maltratar". Se for abandonado, pode ser que repita esse comportamento
em 30% dos casos. Se essas crianças forem abandonadas, existe uma maldição. Se
forem apoiadas, não.
O problema do século XXI será a submissão às máquinas
P. O mesmo deve acontecer com os refugiados que chegam à Europa. Muitos
passaram por situações extremamente traumáticas. A resposta das sociedades que
os abrigam determinará a superação de seu trauma.
R. Podemos massacrá-los, como em Calais, e transformá-los em delinquentes. Ou
podemos salvar muitos deles. Quando a imigração é voluntária existem poucos
traumas psíquicos. Mas na maior parte do tempo, a imigração não é desejada. As
pessoas são expulsas de seus países; fogem para não morrer.
P. O senhor cita em seu livro o psiquiatra Henry Ey, que dizia que o homem não
é mais do que a natureza que ele enfrenta. Como o senhor vê o homem nesse
começo de século?
R. A vergonha do século XX foram as guerras mundiais e os genocídios: genocídio
armênio, genocídio judeu, genocídio ruandês, e outros. São consequência das
tecnologias, as guerras mundiais foram terríveis por culpa da tecnologia. O
problema do século XXI será a submissão às máquinas.
P. Por que?
Não existe biografia sem feridas. Todo mundo, em maior ou menor medida,
atravessa a vida recebendo golpes
R. A Internet é um instrumento de comunicação assombroso. Mas também existe
muito lixo na Internet. Existe um progresso fantástico do conhecimento, mas
também o desenvolvimento da delação e da difamação.
P. O senhor falou em Os Patinhos Feios que as vitórias no campo dos Direitos
Humanos e da tecnologia nos fazem acreditar na possibilidade da erradicação do
sofrimento. Mas o sofrimento faz parte da vida, não?
R. Os médicos, os psiquiatras, os psicólogos, são curadores; escolhemos essas
profissões para curar; somos artesãos, não somos sempre cientistas. A vitória
da tecnologia nos fez acreditar que iríamos lutar contra as injustiças sociais,
mas cada vez existem mais.
P. Quais são as feridas mais difíceis de curar?
R. É preciso fugir da ideia de Descartes de que uma causa produz um efeito.
Morte a Descartes! É preciso dizer: antes da ferida; durante a ferida; após a
ferida. Antes da ferida: o que nos permite adquirir fatores que possam nos
proteger de uma eventual ferida? Não existe biografia sem feridas. Todo mundo,
em maior ou menor medida, atravessa a vida recebendo golpes. Se alguém, desde
pequeno, conta com um porto seguro, cultiva a confiança em si próprio, consegue
superar uma desgraça porque sua memória lhe diz que é possível seguir em
frente. O sofrimento é menor se o golpe vem de alguém estranho à pessoa do que
de alguém próximo. Quando era criança minha família foi destruída pelo nazismo;
e eu quase fui destruído; o golpe veio de estranhos e eu me senti protegido
pelos justos, pelos franceses não judeus que me abrigaram.
O jihadismo diz o que os cristãos disseram durante muito tempo: morra primeiro,
seja feliz depois
P. Se as desgraças, na existência, são inevitáveis, projetamos então uma ideia
falsa da felicidade na sociedade ocidental hoje em dia?
R. Ninguém sabe definir a felicidade. Durante muito tempo a passagem pela terra
era o vale de lágrimas entre dois paraísos: o paraíso perdido, por culpa do
conhecimento; e o paraíso possível, que podemos ganhar após nossa morte,
obedecendo às leis divinas. Entre os dois paraísos existia o sofrimento. O
século XIX e a revolução francesa mudaram essa noção da felicidade. Se
acreditamos que a felicidade é metafísica, acreditamos que pode vir somente
após nossa vida, após nossa morte. É o que acontece com os jihadistas. O
jihadismo diz o que os cristãos disseram durante muito tempo: morra primeiro,
seja feliz depois.
P. Como o senhor vê o futuro dessa sociedade que nos vende essa ideia de
felicidade que não é tão fácil de conseguir?
R. Uma das soluções propostas foram os remédios. A droga é uma solução falsa:
tome medicamentos para ser feliz. Sabemos agora que a felicidade é um fazer
contínuo; é o prazer de viver cotidianamente; é um trabalho de todos os dias,
não é metafísico. O artesanato da felicidade cotidiana é feito dia a dia.
-brasil.elpais.com/brasil/2016/03/22/sociedad/1458665067_836852.html